Análise
"É a mesma coisa", mas não é: as contradições de Thiago Teixeira sobre Muay Thai e Kun Khmer
Em 8 de março de 2024, o canal Cortes do Camisa de Força publicou no YouTube um trecho de entrevista com Thiago Teixeira, o brasileiro que trocou o Muay Thai pelo Kun Khmer e virou cidadão cambojano.
- Por Redação
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Em menos de 40 segundos, entre 2:48 e 3:31, ele tenta explicar a diferença entre as duas artes, e o raciocínio desmonta a si mesmo.
Ele começa com uma afirmação categórica:
"O Muay Thai e o Kun Khmer são a mesma coisa, certo? Só muda o nome (...) mas é a mesma coisa. Aquela arte das oito armas. As fintas, o clinch, é tudo muito parecido, não muda."
E, na frase seguinte, já corrige:
"…muda o ponto da regra."
A partir daí, o próprio Thiago passa a listar diferenças. Diz que o Kun Khmer "é mais como se fosse um Maximum Muay Thai". Diz que, se o lutador ficar no jogo de pontuação técnica típico do Muay Thai, "você perde". Explica que no Kun Khmer "os caras gostam de joelho e cotovelo. E vai pra dentro, pra cima, pra dentro", que "não tem" o jogo de "andar, marcar ponto, usar a corda", e que "o ponto é da murro, andar pra frente (...) murro e cotovelo".
E então conclui: "Então, essa é a única diferença, mas tirando isso, é a mesma cultura."
Onde o raciocínio quebra
Num esporte de combate, a regra e o critério de pontuação não são um detalhe. Eles definem como se luta, o que se treina, qual estratégia vence e qual perde. Quando o próprio Thiago diz que a estratégia que vence no Muay Thai faz você perder no Kun Khmer, ele está descrevendo duas modalidades diferentes, e não a mesma com outro nome.
O argumento de que são "a mesma coisa" se apoia no fato de as duas usarem as mesmas armas: punhos, cotovelos, joelhos e canelas. Mas usar as mesmas partes do corpo é só um ponto em comum, não uma prova de que as modalidades são iguais. Boxe inglês e boxe chinês usam os punhos. Judô e jiu-jitsu usam pegadas e quedas. Ninguém diz que são a mesma coisa, justamente porque as regras, a pontuação e a forma de lutar mudam o esporte.
Além disso, uma diferença que muda a pontuação, o ritmo, a movimentação no ringue e o uso da corda não pode ser chamada de "a única diferença". Na verdade, é a diferença que importa.
Inocência ou pressa?
O mesmo vídeo ajuda a entender o contexto. Ao falar do momento em que aceitou representar o Camboja, Thiago resume com uma palavra: "Na inocência" (10:40). Mais adiante, ele relata que a WMO o chamou de traidor por ter subido ao ringue com o shorts do Kun Khmer, "não era shorts de Muay Thai" (12:31), depois de "representar o Muay Thai há mais de 10 anos" (16:34). E aceita, ele mesmo, a comparação com um jogador brasileiro que passasse a defender a Argentina: "Não pode" (16:53).
Ou seja, ao mesmo tempo em que diz que as duas artes são idênticas, ele reconhece que trocar uma pela outra foi uma troca de lado, a ponto de ser visto como traição.
O retrato que fica não é necessariamente de má-fé. Parece mais um atleta que entrou numa disputa cultural e política entre Tailândia e Camboja sem dominar os termos dela, e que tenta explicar com frases contraditórias uma escolha feita, nas palavras dele, "na inocência". Mas a inocência anda junto com outra coisa: a oportunidade de virar, quase da noite para o dia, o rosto estrangeiro de uma causa nacional, com cidadania, nome khmer e milhões de seguidores. Entre não conhecer a fundo as regras e querer abraçar rápido o papel de ídolo, a explicação mais provável é uma mistura das duas.
Citações transcritas do vídeo "Como é sua vida no Cambodja? | Thiago Teixeira | Cortes do Camisa de Força", publicado no YouTube em 8 de março de 2024. Os horários indicam o momento de cada fala no vídeo.
Fontes citadas
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