Análise
A tatuagem que não apaga a história: Thiago Teixeira cobre o "MUAYTHAI" das costas
Durante anos, Thiago Teixeira carregou nas costas, em letras grandes, a palavra MUAYTHAI. Não era um enfeite. Era quase um currículo.
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O brasileiro chegou à Tailândia em 2009, por volta dos 20 anos, com uma passagem paga pela mãe, que vendeu o 13º salário. Foi no Muay Thai que ele ganhou nome, títulos e uma vida que nunca teria tido na periferia de São Paulo. Foi também o Muay Thai que abriu as portas do circuito internacional e de uma academia própria em Koh Samui.
Em 20 de julho de 2023, o portal tailandês Sanook noticiou que essa palavra tinha deixado de existir. Com o título "Fim da linha! 'Thiago' apaga tudo o que é 'Muay Thai' e se dedica ao 'Kun Khmer'", a reportagem conta que o lutador cobriu a tatuagem com o rosto do rei Jayavarman VII, a face esculpida no topo do templo de Bayon, um dos maiores símbolos do Império Khmer.
A virada, segundo o Sanook
De acordo com o portal, a mudança começou depois de uma visita aos relevos de pedra de Angkor Wat, em Siem Reap. Na ocasião, Thiago escreveu que tinha sido "uma experiência inacreditável" ver "o lugar onde começou a arte marcial que eu treino desde os 16 anos". E foi além: "A arte marcial que eu chamava de Muay Thai, mas hoje descobri que o que eu treinei a vida toda é a arte marcial khmer. Isso é algo que eu nunca soube durante 18 anos, e muitos lutadores no mundo também não sabem."
Desde então, segundo o Sanook, ele "passou a atacar o Muay Thai continuamente", mas tinha um ponto fraco que os fãs tailandeses não paravam de ironizar: o enorme MUAYTHAI tatuado nas costas. A solução foi cobrir a palavra com o rosto do rei khmer, um gesto que, segundo o portal, foi "muito elogiado pelos fãs khmer" como prova de que ele estava pronto para levar o Kun Khmer ao cenário mundial. O texto lembra ainda que o brasileiro treinou em Koh Samui e lutou por mais de 10 anos em ringues tailandeses, até ser banido pela WMO por "desrespeitar o Muay Thai".
Uma decisão de pele
Uma tatuagem não é uma postagem que se apaga no dia seguinte. Quando alguém cobre na pele a palavra que resumiu mais de uma década da própria vida, não está só mudando de opinião. Está tentando reescrever a própria biografia. E o detalhe que mais pesa é que a frase que justificou a mudança é dele mesmo: depois de 18 anos treinando, ele diz ter descoberto numa única visita a um templo que tudo o que fez era outra coisa.
Não é a primeira vez que Thiago age assim. Na entrevista ao canal Camisa de Força, em março de 2024, ele mesmo admitiu que aceitou representar o Camboja "na inocência". Na mesma conversa, disse que Muay Thai e Kun Khmer "são a mesma coisa" e, segundos depois, listou as diferenças de regra e de estilo entre os dois. Em junho de 2024, no Facebook, disse que a liderança cambojana nunca o apoiou e que o país "pode pegar a nacionalidade de volta". O padrão se repete: decisões grandes, tomadas no calor do momento, e revistas logo depois.
O inimigo do meu inimigo
Fica a pergunta sobre o que realmente levou Thiago a apagar o MUAYTHAI. Uma revelação histórica? Mágoa com o banimento e com quem o ameaçou na Tailândia? Ou a chance de ser abraçado por um país que, naquele momento, precisava de um rosto estrangeiro para defender o Kun Khmer contra o vizinho? A sequência dos fatos sugere a lógica de "o inimigo do meu inimigo é meu amigo". Rompido com a Tailândia, ele encontrou no Camboja um lugar onde a raiva dele virava aplauso. E, ao menos no começo, também cidadania, nome khmer e projeção.
Mas a tinta nova não muda o passado. Por mais de dez anos, Thiago Teixeira foi um lutador de Muay Thai e subiu aos ringues tailandeses com a bandeira do Brasil. Para muita gente da comunidade, foi um grande lutador e até uma referência. Só que essa referência sempre se limitou ao ringue. Fora dele, as atitudes polêmicas, as falas contraditórias e as mudanças de lado vêm desgastando, dia após dia, a credibilidade que os títulos construíram.
O Muay Thai abriu portas e deu ao brasileiro experiências que nenhuma tatuagem por cima vai apagar.
Fonte: Sanook, "ขอจบเพียงเท่านี้! 'ธิอาโก้' ลบทุกอย่างที่เป็น 'มวยไทย' ขออุทิศตนเพื่อ 'กุน แขมร์'", publicada em 20 de julho de 2023. Tradução livre do tailandês. As demais falas de Thiago vêm da entrevista ao canal Camisa de Força (YouTube, 8 de março de 2024) e das postagens no Facebook de 23 de junho de 2024.
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